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As Esculturas de Gelo (Néle Azevedo)



O artista brasileiro Nele Azevedo criou centenas de esculturas de gelo, que duraram até o calor aumentar.






O que pode um corpo?
Exposição de Néle Azevedo reconstitui sua trajetória
das esculturas em ferro até as intervenções
com monumentos mínimos em gelo.

Depois de subverter os cânones do monumento com esculturas que representam pessoas anônimas, possuem menos de 20 cm de altura e perecem minutos depois, por serem feitas de gelo, a artista plástica Néle Azevedo indaga as possibilidades do corpo, numa referência ao filósofo Espinosa: “O que pode um corpo?”, na exposição que realizará de 25 de outubro a 22 de novembro de 2008, no dconcept escritório de arte, em São Paulo.

Em comum com as esculturas de gelo, o novo trabalho tem a transparência da resina e a capacidade de sensibilizar o espectador ao fazê-lo defrontar-se com sua própria realidade. Se nas intervenções urbanas com esculturas de gelo, os transeuntes distraídos eram surpreendidos por uma exposição nua e crua da ação do tempo, na mostra “O que pode um corpo?”, visitantes voluntários irão deparar-se com a sua realidade física individual refletida nas superfícies de acrílico que cobrem os desenhos.
O que poderá o corpo de cada espectador diante da própria imagem, enquanto observa os corpos em resina? O que poderão, onde quer que estejam, esses corpos anônimos capturados pelo olhar da artista e agora transformados em objeto artístico?

Caso existam respostas a essas perguntas, elas só serão encontradas no silêncio interno de cada espectador. Para Néle, indagar sobre as possibilidades dos corpos significa revisitar o percurso feito desde as esculturas de ferro até a dissolução do corpo no gelo, buscando uma nova forma de entendê-lo. Por isso escolheu um cenário intimista, com apenas 14m², no dconcept .

“O que pode um corpo?” reúne esculturas de resina e desenhos além de uma peça única em ferro, todas feitas ao longo dos anos que antecederam as intervenções com esculturas de gelo.
Sylvia Leite
Doutoranda em Filosofia – USP

http://www.dconcept.net/site/biografia_e_obras.php?id_artista=9

http://neleazevedo.fotopages.com/?entry=967993

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COMO NASCEM AS IDÉIAS SURPREENDENTES QUE FUNDAM A ARTE


Autoria: Facundo Manes (diretor do INECO e do Instituto de Neurociências da Fundação Favaloro). Publicado originalmente no jornal El Clarin p.27, 14-02-2010.

Tradução Ivan Masafret.

A arte transforma em novidade o cotidiano, em original o repetitivo e ordinário. A obra de arte permite interpretar com novas chaves o conhecido e construir novos sentidos coletivos. E é o gênio artístico o que tem a capacidade de gerar aquilo extraordinário que a sociedade percebe como maravilhoso.

As neurociências oferecem uma reflexão sobre a arte e a criatividade que possibilita indagar sobre a gestação e desenvolvimento das idéias não convencionais.

Observar a incidência de enfermidades nos processos criativos nos possibilita modificar nossos pareceres sobre estas enfermidades, ma também sobe os processos criativos. Ainda que não é necessário sofrer de demência, esquizofrenia ou bipolaridade para ser um gênio criativo, muito do que sabemos sobre criatividade e cérebro o conhecemos por pessoas que desenvolveram talentos artísticos apos uma disfunção cerebral.

Kandinsky descobriu seu problema neurológico denominado sinestesia durante um concerto de Wagner, ao perceber que via cores da musica. A sinestesia é uma condição na qual um sentido é percebido simultaneamente com alguns outros sentidos. Kandinsky pintou o movimento, porque tinha a capacidade de ver algo assim como a movimentação do estático.


Desde muito pequena, Sofia tinha respostas anormais. Ao longo de extensos exames e estudos foi diagnosticado o autismo. Mas, além de todas suas dificuldades, tinha uma habilidade especial para o desenho. Sofia percebia a realidade de maneira diferente, e sua percepção mostrava coisas que os demais não viam. Uma porcentagem dos autistas parece ter um don especial para a criatividade e imaginação.

A epilepsia muitas vezes produz auras visuais muito vividas que podem influir no fazer artístico. O pintor Franco Magnani, desde o começo de sua epilepsia, começou a pintar de maneira compulsiva seu povoado natal, que recordava com nitidez anormal, mesmo estando distante há mais de 12 anos.

Diversos estudos sugerem uma associação entre a enfermidade bipolar e a criatividade. Pessoas com afetação progressiva do lóbulo frontal podem desenvolver talento criativo logo no começo da enfermidade, mesmo que não tenham uma historia pessoal de produção artística previa. Uma hipótese é que os sistemas de inibição é liberado com o dano frontal.

Alguns propõem que a inovação surge quando áreas do cérebro que não estão geralmente conectadas passam a comunicar-se e coativar-se. O interesse em uma produção artística leva a um estado grande de motivação que produz uma atenção sustentada (sustenida), necessária para melhorar o rendimento em outros domínios cognitivos.

A criatividade pode ser treinada, mas também tem uma carga genética que a predispõe. No estudo da produção artística de pessoas com enfermidades mentais tem muito para se aprender sobre o cérebro, sobre as enfermidades e sobre a historia da arte e a cultura.

Mas também esta a possibilidade de interpelar-nos sobre a idéia de normal, do estabelecido, os prejuízos que muitas vezes surgem sobre aquilo, ou aquele que se manifesta como diferente da sociedade.

Destas diferenças, muitas vezes, surgiram maravilhas.