Autoria: Facundo Manes (diretor do INECO e do Instituto de Neurociências da Fundação Favaloro). Publicado originalmente no jornal El Clarin p.27, 14-02-2010.
Tradução Ivan Masafret.
A arte transforma em novidade o cotidiano, em original o repetitivo e ordinário. A obra de arte permite interpretar com novas chaves o conhecido e construir novos sentidos coletivos. E é o gênio artístico o que tem a capacidade de gerar aquilo extraordinário que a sociedade percebe como maravilhoso.
As neurociências oferecem uma reflexão sobre a arte e a criatividade que possibilita indagar sobre a gestação e desenvolvimento das idéias não convencionais.
Observar a incidência de enfermidades nos processos criativos nos possibilita modificar nossos pareceres sobre estas enfermidades, ma também sobe os processos criativos. Ainda que não é necessário sofrer de demência, esquizofrenia ou bipolaridade para ser um gênio criativo, muito do que sabemos sobre criatividade e cérebro o conhecemos por pessoas que desenvolveram talentos artísticos apos uma disfunção cerebral.
Kandinsky descobriu seu problema neurológico denominado sinestesia durante um concerto de Wagner, ao perceber que via cores da musica. A sinestesia é uma condição na qual um sentido é percebido simultaneamente com alguns outros sentidos. Kandinsky pintou o movimento, porque tinha a capacidade de ver algo assim como a movimentação do estático.
Desde muito pequena, Sofia tinha respostas anormais. Ao longo de extensos exames e estudos foi diagnosticado o autismo. Mas, além de todas suas dificuldades, tinha uma habilidade especial para o desenho. Sofia percebia a realidade de maneira diferente, e sua percepção mostrava coisas que os demais não viam. Uma porcentagem dos autistas parece ter um don especial para a criatividade e imaginação.
A epilepsia muitas vezes produz auras visuais muito vividas que podem influir no fazer artístico. O pintor Franco Magnani, desde o começo de sua epilepsia, começou a pintar de maneira compulsiva seu povoado natal, que recordava com nitidez anormal, mesmo estando distante há mais de 12 anos.
Diversos estudos sugerem uma associação entre a enfermidade bipolar e a criatividade. Pessoas com afetação progressiva do lóbulo frontal podem desenvolver talento criativo logo no começo da enfermidade, mesmo que não tenham uma historia pessoal de produção artística previa. Uma hipótese é que os sistemas de inibição é liberado com o dano frontal.
Alguns propõem que a inovação surge quando áreas do cérebro que não estão geralmente conectadas passam a comunicar-se e coativar-se. O interesse em uma produção artística leva a um estado grande de motivação que produz uma atenção sustentada (sustenida), necessária para melhorar o rendimento em outros domínios cognitivos.
A criatividade pode ser treinada, mas também tem uma carga genética que a predispõe. No estudo da produção artística de pessoas com enfermidades mentais tem muito para se aprender sobre o cérebro, sobre as enfermidades e sobre a historia da arte e a cultura.
Mas também esta a possibilidade de interpelar-nos sobre a idéia de normal, do estabelecido, os prejuízos que muitas vezes surgem sobre aquilo, ou aquele que se manifesta como diferente da sociedade.

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